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Our work strives to enhance our sense of surroundings, identity and relationship to others and the physical spaces we inhabit, whether feral or human-made.

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  • 2004 — Aga Khan Award for Architecture
  • 2009 — Mies van der Rohe Award
  • 2013 — AIA/ALA Library Building Award
  • 2015 — Best Interior, Designers Saturday
  • 2016 — AIA New York Honor Award

A questão do amor na transferência.

Por Juan Maresca

É bem-sabido que na transferência positiva é quando a terapia realmente funciona. Neste tipo de transferência existe uma aliança de trabalho e confiança, onde o paciente confia no terapeuta e juntos podem trabalhar o problema em questão.

O conceito de transferência é bem interessante. Fora da psicanálise se define como um ato, ou seja, um verbo, onde existe um deslocamento, passagem, permutação, substituição. Nesse sentido, que melhor definição do objetivo da psicanálise: sacar algo de um lugar e deixá-lo em outro lugar, deslocá-lo, seja do inconsciente ao consciente, tirar o peso das nossas costas e compartilhá-lo com o outro, e também, deslocar as nossas histórias dentro de nos mesmos, produzindo outras, ressignificando seus conteúdos por novos.  

Nesse sentido, o Silvestre traz uma bela definição: “A transferência é amor que se dirige ao saber”

Mas de que tipo de amor estamos falando? Como deveríamos pensar e trabalhar esse amor?

Dessa questão trata este texto.

Na nossa cultura, o amor vai se reduzindo a cada vez menos lugares, ao invés de estar presente em tudo o que fazemos. Isso deixa espaço para não enxergar o amor como deveríamos, o espírito que “une” tudo.

O amor é muitas vezes confundido com paixão, como algo irracional, um desejo inconveniente, que não é calculável. Alguém investiria seu capital, seu dinheiro, no amor?

A etimologia da paixão nos ajuda a entender este ponto. Vem do grego “Pathos” e do latim “Passione”, como ato de suportar, de sofrer, é uma afeição da alma. Algo que se padece, que não é decidido.

Nesse sentido, a paixão não ajuda. Pelo que eu prefiro ver a transferência desde a lente do amor nos mitos gregos, uma união para criar.

Hesíodo contava que os Deuses criaram o Caos, a Terra o Céu e logo criaram a Eros, o amor, para unir o Céu com a Terra e procriar tudo o que existe.

Empédocles, nos contou outra história sobre a união. Ele pensava que tudo o que existe contém os quatro elementos: a água, a terra, o ar e o fogo e quem os une é o amor. Também deixa claro que o que separa os elementos é o ódio e a discórdia.

Mas a união nos deixa perguntas. Na união não existe uma antropofagia do outro? Quem une a quem? O amor tem que ver comigo ou com o outro? Apaixono-me pelo outro ou simplesmente me apaixono pelas minhas carências e necessidades?

O amor sempre tem a ver com o outro. Tem a ver com Jesus não reconhecendo a sua mãe nem a sua família, porque sua mãe e sua família são todos.

 

Matheus 12, 46-50 Jesus ainda estava falando à multidão, quando sua mãe e seus irmãos, que ficaram de fora, procuravam falar-lhe. Alguém lhe disse: “Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e querem falar contigo”. Respondeu Jesus a quem lhe trouxe a notícia: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? “ E, apontando para os discípulos, acrescentou: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Pois todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe”.

 

Também Nietzsche entendeu o amor fora dos binômios como esquerda-direita, bom-ruim, lindo-feio. Ele nos diz, “Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.”

Eu vejo a transferência como o amor da união. Nela o amor aparece em forma de relato. São histórias que se escrevem e se falam com nosso corpo. No final, nós somos as histórias que contamos de nós mesmos.

Na transferência os relatos dialogam com outros relatos e se ressignificam. As histórias dialogam com outras histórias. Dialogamos com Cristo, Romeu e Julieta, com o terapeuta e também com nós mesmos.

A Bíblia tem uma história interessante e muito conhecida sobre a união de Adão com Eva. Mas eu vou contar as entrelinhas dessa história.

No Gênesis 1.27 está escrito, “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. Nesse momento Deus criou Adão e outra mulher.

No capítulo seguinte, somente aparece Adão. Onde foi parar a mulher que se criou junto a ele? O que aconteceu com ela não é objeto deste análise, o que sim sabemos é que Adão se sentiu sozinho. Será que Adão não conseguiu gostar dela, se unir a ela, se apaixonar por ela, amar ela?

Ao que Deus diz no capítulo 2:18: “E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só”.

Então, Deus resolve criar um ser que seja mais parecido a Adão. Gênesis 2:22,23 “E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. “

Nesta nova mulher, chamada Eva, existe uma possibilidade maior de união. Ela não é estranha nem exatamente igual a ele. Nesse outro, mas parecido a mim, se encontra o vínculo que termina no amor.

Mas sabemos que a transferência positiva não deve ser perpétua. Nesse sentido, penso que uma luz de resposta a podemos encontrar na divisão do amor feita na Grécia antiga, onde não existia um Deus do Amor, mas sim uma tríade entre Eros, Philia e Àgape. 

A transferência não deveria ser o Deus Eros, que entende o amor como desejo, o apaixonamento, a busca pelo faltante.

A transferência deveria ser mais parecida com o trabalho da Deusa Philia, que entende o amor como a construção de um projeto comum. Que tem a vontade de construir com o outro e com a diferença do outro, para assim transformar o mundo, nosso mundo.

Mas finalmente, a transferência deve chegar a se conectar com os ideais da Ágape, um amor que se dá, que se entrega e é incondicional. Um amor não quer ser dono do outro, que decide se retirar para que o outro seja. Que se retira, para que a transferência termine, para que o tratamento termine e o outro se expanda.