About Us

Our work strives to enhance our sense of surroundings, identity and relationship to others and the physical spaces we inhabit, whether feral or human-made.

Selected Awards
  • 2004 — Aga Khan Award for Architecture
  • 2009 — Mies van der Rohe Award
  • 2013 — AIA/ALA Library Building Award
  • 2015 — Best Interior, Designers Saturday
  • 2016 — AIA New York Honor Award

Algumas hipóteses sobre a melancolia (depressão) no século XXI.

Por Juan Maresca

A diferença entre luto e melancolia que manifesta Freud nos textos é chamativa. Em quanto o luto trata sobre a reação normal relativa à perda de um ente querido, a melancolia, no entanto, também manifesta uma perda, mas com um problema ainda maior. A dificuldade de não poder enxergar exatamente qual o conteúdo da perda, porque, no fundo, o objeto da perda esta dentro de nos mesmos.

As sensações corporais explicadas na melancolia e descritas como sensação de buraco no peito e vazio no nosso interior são bem explicitas. Explica muito bem o objeto, ou melhor dito, a falta do objeto dentro nosso: em síntese, nos perdemos a nós mesmos. E ao nos perder a nos mesmos, também perdemos o único amor que quedava, que é simplesmente o amor-próprio. Seguindo este raciocínio, pode explicar-se a presença de baixa autoestima e auto recriminação muitos comuns na Melancolia e inexistentes no luto normal.

No fundo do fundo, em nossos pensamentos mais profundos, e na minha opinião, a melancolia é a perda momentânea ou constante de nosso sentido existencial.

Mas o que aconteceu no século XX para que a humanidade tenha desenvolvido esta doença em maior escala?

Muitas coisas, e todas misturadas. Mas vou tentar organizar minhas hipóteses. Primeiramente a chegada do niilismo. Nietzsche já no século XIX, veio nos alertar sobre o avanço do niilismo nas nossas vidas. O niilismo considera que no final, tudo se reduz a nada, portanto, nada faz sentido. Esse tipo de pensamento e sentimento, hoje generalizado, cria um enorme vazio existencial e individual, na maioria das vezes, chega como um ruído desde nosso inconsciente. Viver a vida pensando que nada faz sentido, que não existe nada além nem nada cá. Que nossas crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há sentido ou utilidade na nossa existência. Viver assim não é quase a assistência a nossa própria morte? Mas vivos. E como continuamos vivos, nos enfrentamos ao nosso próprio enterro em vida, assistimos diariamente ao nosso velório e vivemos o luto próprio. Isso nos leva aos traços típicos da melancolia como desanimo, falta de interesse pelo mundo externo e de toda e qualquer atividade.

Tem perguntas o niilismo conseguiu ocultar muito bem. São as grandes perguntas que mantiveram a humanidade avançando no conhecimento ate os dias de hoje. Essas perguntas são tão simples como: para vivermos? Porque estamos cá? Qual é a função de nossa existência? O que fazemos com tudo isto? , etc. São todas perguntas que na minha opinião estavam mais presentes no passado que nos dias de hoje. Mas não só o niilismo as ocultou de todos nos, também a maquina capitalista, a nova sociedade de consumo, onde nos somos só uma engrenagem, não nos deixa nem tempo, nem vontade para nos fazer essas perguntas e enfrentar-nos a elas.

 

E no passado como era? Comecemos com Deus, pelo menos existia Deus e seus valores morais e éticos. Na chegada do modernismo, e com a máxima de “Penso, logo existo” de Descartes, a humanidade perto de um Deus foi dia a dia destruído. Ao invés de Deus estar no centro, esse centro foi ocupado pelo homem e sua nova logica cartesiana.

A falta de Deus, da Fê, é obviamente uma grande lacuna vazia na nossa existência para suportar a existência. O século XX e nosso século XXI é a constatação intelectual da famosa frase de Nietzsche “Deus está morto”.

Mas a lacuna de Deus necessitava ser preenchida. O que veio a suplantar a Deus? Poderia teorizar muito sobre isto, mas principalmente vou a enunciar duas coisas: A ciência e o capitalismo (dinheiro). É bem sabido que a sociedade capitalista começou com a chegada da ciência e sua técnica. A técnica fez com que a capacidade de produção aumentasse e assim a massa monetária também.  Nesta nova cultura, a técnica e o dinheiro terminaram dominando-nos, e não nós a eles. Nessa dominação começamos a nos esquecer de nos perguntar quem nos somos.

O problema não é que não sabemos responder à pergunta de para que vivermos? Porque estamos aqui? Qual é a função de nossa existência? Essas perguntas são difíceis de responder, e a filosofia, a teologia e ate a psicologia trabalha constantemente para responder essas perguntas. O problema é outro, simplesmente, nem sequer temos, nem tempo, nem vontade de nos perguntar essas coisas. Essas perguntas as reprimimos, as enviamos ao nosso inconsciente. Essas perguntas fazem dano nesta vida mecanizada. Sabemos, sempre o reprimido quer retornar, e neste caso, devido à carga energética da repressão, volta em forma de melancolia.

Desde sempre, o ser humano quis pensar sobre essas perguntas. É parte de nós perguntarmo-nos isso. No século passado e neste, devido à chegada do niilismo, a falta de Deus, o advenimento da técnica e do dinheiro, não temos tempo para enfrentar estas perguntas e terminamos assistindo à nossa própria morte em vida. O Heidegger tinha dois conceitos para isto. “Sein”, somente existir e “Dasein” se compreender a si mesmo enquanto ser que existe.

No primeiro caso, só existimos, não nos preguntamos nada, e como cantava Zeca Pagodinho, “deixa a vida me levar”. Acordamos, trabalhamos, voltamos a dormir. Que a vida seja assim. Sem muitas perguntas. Na minha opinião, este caminho vai direto à melancolia.

No segundo caso, não só existo, compreendo que existo e quero saber o porquê. Quero descobrir minha existência.  Sim, eu sei, estamos aqui, jogados no mundo, na intempérie. Frente a essa situação escolho me perguntar e me enfrentar à pergunta: “o que eu faço com tudo isso?” com a nossa vida, com esta situação de estarmos jogados neste mundo. Escolher este caminho significa não fugir e enfrentar a angústia de saber que existimos e questionar o sentido do ser, de nós mesmos. Essa escolha, seja na filosofia, na teologia ou numa sessão de psicanálise é o caminho de parar esta melancolia, trazer à consciência estas questões e começar a sair desta vida sem sentido, que nos leva a nada mesma.